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PALESTRA SOBRE O TEATRO (editada)

Não falo esta noite como autor nem como poeta, nem como estudante singelo do rico panorama da vida do homem, mas como ardente apaixonado do teatro de ação social.

O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barômetro que marca sua grandeza ou sua queda.

Um teatro sensível e bem orientado em todos os seus ramos, pode mudar em poucos anos a sensibilidade do povo; e um teatro destroçado, onde as patas substituem as asas, pode achincalhar e adormecer um nação inteira.

Um povo que não ajuda e não fomenta seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a palpitação histórica, o drama de suas gentes e a cor genuína de sua paisagem e de seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem direito a chamar-se de teatro, mas sala de jogo ou lugar para se fazer esta horrível coisa que se chama “matar o tempo”.

Ouço todo dia falar da crise do teatro e sempre penso que o mal não está diante de nossos olhos, mas no mais escuro de sua essência.

Enquanto atores e autores estiverem em mãos de empresas absolutamente comerciais, livres e sem controle nenhum, o teatro inteiro, cada dia mais, desmoronará sem salvação possível.

O teatro deve impor-se ao público e não o público ao teatro. Porque o público de teatro é como menino na escola: adora o mestre grave e austero e enche de agulhas as cadeiras dos mestres aduladores, que não ensinam nem deixam ensinar.

Pode-se ensinar o público e há necessidade de se fazer isso para o bem do teatro, que é sempre, sempre, acima de tudo uma arte.

Desde o teatro mais modesto até o mais elevado deve-se escrever a palavra “Arte” em salas e camarins, porque senão teremos que pôr a palavra “comércio” ou alguma outra que não me atrevo a dizer. E hierarquia, disciplina e sacrifício e amor.

2 de fevereiro de 1935 - FEDERICO GARCIA LORCA

 

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